08 abril 2015

Recordar Dalila L. Pereira da Costa (1918-2012)









Fico grato ao António Quadros Ferro ter-me trazido esta memória e ter-me proporcionado voltar a este espaço que reservei como homenagem a esta notável presença na cultura e no pensamento português, síntese em poética de uma oração à essência íntima do Ser. Quanto lamento que a vida me disperse, me enfraqueça de energias, me force a concentrar-me no que é o ganha pão destas viagens pelo magnífico. Obrigado, pois, do coração.

08 julho 2014

De uma longa caminhada


Tudo se interrompeu a 25 de Junho de 2013. Mais de um ano volvido foi preciso retomar caminho vindo dos atalhos por onde a alma se perde.
Regressei.
A ideia primordial não é a de ensinar, sim a de aprender.
Reuni o que julgo ser a totalidade da obra que escreveu. Mas estou disso incerto, ante a sua constante produção.
E que caminho? Primeiro, aproximar-me do seu local, a sua cidade, depois ter a luta pela sobrevivência aberto espaço para que esteja hoje a dois passos do foco irradiante da cultura que ecoou na sua sensibilidade. Depois o ter encontrado o fio de Ariana que guia os passos de quem retorna: ontem a oferta de um livro de homenagem a Fernando Fernandes, mestre de livreiros, lido noctivagamente, hoje uma descida ao espaço que foi a sua livraria, na Rua de Ceuta e ali a possibilidade de reconstituir a Nova Águia revista de que fui juntando, disperso, números avulso. Enfim, entre eles, num dedicado a Leonardo Coimbra, homenagens devidas e sentidas a Dalila Pereira da Costa. Fechou-se o ciclo que permite o recomeço. 

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Fonte da fotografia: aqui

25 junho 2013

Saudade



Criei este espaço porque queria dedicá-lo. Não que fosse um especialista, mesmo apesar por não ter acompanhado quantos têm escrito sobre a sua obra, os que conheceram a sua pessoa. Sim pela invulgaridade do que li, a excepcionalidade do sentimento que transmite. 
Há tanta extensão do seu escrito tão longe do meu ser quotidiano vulgar e tanta intensidade em alguns breves momentos que são comigo uma indizível comunhão de almas.
Uma destas noites senti o remorso de não ter vindo aqui, ou a saudade. A saudade, como desejo de união e de reintegração, da qual compôs, em 1976, com Jesué Pinharanda Gomes, uma paciente antologia de quantas a sentiram, por tantas formas que não há vocábulo que as contenha e o melhor deles chama-se saudade.
«A saudade só morre na morte (porque aí, realizando-se de todo, se anula, por consumação», escreveu com aquela presciência que lhe adveio da mística que lhe incendiava a alma.

29 março 2013

O reencontro


Criei este blog como homenagem a esta figura ímpar de pensadora. O momento criador foi carinhoso. Faltou a dedicação permanente, que caracteriza o verdadeiro amor. Sinto a falta do que não fiz, como se não me tivesse cumprido. 
Ao António Quadros Ferro devo esta fotografia [publicou-a aqui]. 
Que eu saiba de Dalila existem poucas imagens. É como se tivesse passado etérea, incorpórea, puro reflexo por este nosso mundo material.
Este fim de semana da Páscoa, propício à reflexão interior, estou a rever o que escrevi e o que quero escrever. Estou a lembrar aquilo que me tornou no que sou. O ter descoberto a sua escrita foi determinante. Não que eu me esgote nisso. Não que a espiritualidade diáfana que perpassa pelo legado que nos deixou seja a essência do meu ser. Sim porque é isso que permite a reintegração, o reencontro.

25 dezembro 2012

Entrevista - 2009

Criei o blog em sua homenagem. Tinha delineado ir dando conta de todas as leituras dos seus livros, que fui amealhando, um a um. Depois as miudezas do quotidiano, misto de vicissitudes da vida e dos encargos do ganha-pão, foram roendo o tempo, os deveres morais mobilizando a alma. Nestes dias, por ser Natal, renascemos. Graças ao António Quadros Ferro chegou-me esta sua entrevista, outorgada em 2009. Ouve-se aqui. Publico-a antes mesmo de a ouvir. Com ela a má consciência redime-se. Voltarei à sua obra, como se a uma fonte purificadora.

05 setembro 2012

O Mensageiro

Leio o segundo capítulo de A Força do Mundo. Está estruturado como um diário, cobrindo dez anos de vida da autora, entre 1960 e 1970. Intitula-se O Mensageiro. Nele assinala-se a forma a visitação da alma por um ser transcendente, cuja evanescência progressivamente se clarifica a ponto de se desenhar como sendo o Anjo, «o grande Consolador», a Virgem Imaculada afinal o Espírito Santo, e sem sucessão ou distinção a Rosa Mística e com ela a evidência de uma geometria sagrada, simbólica, pela qual a primitiva «presença» se torna em «encontro» por entre o labirinto do saber revelado..
São aparições e com elas tudo ganha compreensão, o «perpétuo ultrapassar dos limites», o mundo «construído como uma rosa», em camadas sucessivas,vindo de um centro primordial, como uma força «com uma medida nova, não horizontal, mas vertical, em profundidade.»
O leitor sente, nestas linhas que têm de ser interiorizadas para que as conheça, o «júbilo secreto» com que se vive o divino nesta vida através da «alteridade», a de «um amor que se faz e se vive sobre uma falha aberta, um abismo». Tudo diverso do êxtase, que é tema do livro que albergou este capítulo, diferente porque se continuou «a viver no mesmo mundo; e no mesmo corpo de todos os dias, se bem que diferente. Pois que o corpo era possuído por essa força que ele sofria com a possessão docemente terrífica de Deus.»
Para estar neste mundo e conseguir estar com esta narrativa é preciso saber a decifração desta linguagem secreta, «esta linguagem às vezes de imagens, outras de palavras», crescendo «em espirais...em espirais sem fim», este «falar último em fusão, de alma a alma».

18 agosto 2012

Promessa e dom


A ascese como forma de aquisição do Absoluto, eis a vida iniciática de Dalila. Quando escreveu o ensaio para a revista Esprit teria ocorrido apenas «duas vezes, únicas», separadas por onze anos, aquele «número de instantes» em que, por via do «silêncio, a imobilidade, a soledade; e também a presença duma doce e brilhante luz do sol» a mística lhe surgiu. Viria a referir um terceiro no livro Instantes uma terceira.
O primeiro deles, «o instante de ouro», ter-lhe-ia ocorrido em Coimbra, na Primavera de 1938 «por volta do meio-dia, à sombra duma grande pittosporum dum jardinzinho fechado, silencioso e solitário da Casa dos Coutinhos junto à Sé Velha, então Lar do Sagrado Coração de Maria, com raparigas universitárias», na forma de «uma intensa luz, tão doce, e que não era a luz deste nosso sol», momento em que «o fora e dentro eram indiscerníveis, idênticos, num único e inseparável todo; a luz também inseparável e indiscernível da paz, silêncio, liberdade e amor; em total despojamento, esquecimento do mundo: quádrupla raiz divina, com atributos de um só e único Todo, ele inominável; em dom concedido gratuitamente».
Se o cito é porque a sua rememoração é ilustrativa da forma pelo qual a chama se lhe incendiou, «como promessa e dom supremo concedido por Cristo». Eis, copiando da sua escrita, nisso incluindo a invulgar forma de pontuar, tão típica como se assim marcasse uma outro modo gramatical de respirar o dizer:
«Que nesse instante, por ele anulou, como conhecimento-vivência, toda a realidade rodeante. Seu fim, como lento abandonar, sendo sentido como queda nessa realidade terrena. Instante concedendo um conhecimento de certa certeza absoluta, irrefutável, da existência de outro mundo e vida possível, em separação total deste; sem tempo, de antes e depois, sem espaço de aqui e além: como centro do mundo e da vida: eixo imóvel, dum mundo e vida que à volta rodam incessantes».